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Letras: Degustação de "Volkodlák"






Como era de se esperar, jantou sozinha e, forçando uma desculpa de dor de cabeça, se recolheu aos seus aposentos assim que terminou sua refeição. Serena, por sua vez, também parecia não estar disposta a impor sua presença. Algo no semblante da mulata transmitia-lhe preocupação, contudo Yamê tentou não pensar muito sobre isso, já que talvez a resposta estivesse ligada a José.
Esse pensamento, que a assolou mais uma vez no quarto após ter trocado o vestido pela camisola rósea, manteve-a em movimento ininterrupto por quase meia hora. E se fosse possível tal proeza aos passos firmes dela, teria feito uma linha perfeita entre a janela e a porta.
Pensava em José, em Serena e na tapeçaria. Ainda eram audíveis os passos da mulata pela casa, e com ela nos corredores, sair com o rolo em mãos era arriscado demais. Não queria passar por fuxiqueira, mas ação que cometeria por si só demonstrava claramente o contrário.
Deixou-se cair contra o colchão com um beicinho nos lábios. Será que passaria a noite em claro com aquele problema nas mãos?
Um estrondo forte e um clarão que iluminou todo o quarto, e trouxe-a de volta à realidade da tempestade lá fora. Ergueu-se e uniu seu rosto à vidraça, esfumaçando-a. Tentando divisar contornos na escuridão, mas tudo que seu olhar alcançava era a parede da montanha se desfazendo em veios de água.
Voltou os verdes para dentro e caminhou até a cama, abaixando-se para puxar a tapeçaria de lá debaixo. Bom, se fosse obrigada a conviver com ela por mais tempo do que desejava, ao menos conheceria seu conteúdo. Se a pegassem com ela, poderia não haver desculpas cabíveis para seu delito – desenrolou-a sobre sua colcha de babados bege. – Ao menos saberia qual o motivo de seu castigo... Como se não bastasse tudo que José já tinha contra ela.
  Todavia, quando a figura foi exposta aos seus olhos, o corpo de Yamê chocou-se contra a cômoda atrás dela, fazendo uma infinidade de objetos caírem ao chão, provocando um barulho metálico. As mãos foram unidas em conchas até os lábios, para que sua surpresa fosse abafada, já que seu coração martelava como um bumbo em seus ouvidos.
Os verdes extremamente abertos ao encontro da tapeçaria, e por segundos, viu-se negando veemente o que seus olhos lhe mostravam.
– Não... – ela deixou baixo no ar quando sentiu que não mais alardearia seu choque. – Não pode ser... – Espalmou uma mão ao encontro do estômago, que ameaçava externar todo jantar.
Ela se aproximou da tapeçaria, tremendo... Ficando bem de frente para a imagem.
Era uma mulher bela, com seus cabelos escuros caindo em cascatas por seus ombros. Sua léine era escura, que demonstrava algum tipo de luto ou reclusão; e o brat, que estava disposto sobre a cadeira que ocupava, era ricamente trabalhado em lã – o que certamente revelava uma posição social elevada.  Ainda assim, esses detalhes detectados por Yamê não eram nada se comparados a cor dos olhos que a fitavam, não importando que posição adotasse em frente à tapeçaria. Eles estavam inegavelmente sobre seu admirador, e eram tão verdes... Tão incrivelmente verdes como os seus próprios. 
Sentiu náuseas e lutou para não desmaiar quando observou melhor as mãos da mulher. Eram tão pálidas quanto às do seu último sonho. Num estalo, deixando seu desespero aflorar, enrolou-o de qualquer forma, quebrando o contato de seus verdes com o da figura. 
Amarrou-o firme, respirou fundo e decidiu que não ficaria mais um segundo diante daquela peça. Abriu uma fresta da porta e esperou, olhando para a curva do corredor mais adiante, onde ficava a porta de José.
Não havia sons, a não ser o da tempestade lá fora com os quais já se acostumara. Os relâmpagos invadiam seu quarto; os trovões assustavam-na a todo instante; e a chuva quebrava-se impunemente contra as paredes da casa, mas não havia mais sinal de atividade humana que não a dela mesma.
Encostou a porta e tomou a tapeçaria sobre um dos ombros, para manter as mãos livres e poder ser mais ágil, caso houvesse necessidade de uma fuga apressada. Andou devagar, escorregando sigilosa pelos tapetes e assoalho até alcançar a porta do quarto de José. Dedicou mais uma averiguação minuciosa pelas imediações, e certificando-se que estava realmente só, girou a maçaneta.
Estava escuro lá dentro como antes, o mesmo cheiro de terra molhada misturado ao de José, que ela não entendia o porquê, parecia mais forte. Foi somente quando entrou completamente no quarto, que notou a figura junto à janela; o corpo inclinado sobre alguma coisa e os cabelos formando uma cortina de fundo para o seu ato.
A respiração de Yamê suprimiu quando um brilho selvagem e dourado invadiu seus verdes. Um relâmpago explodiu naquele instante, trazendo luz à cena, e a sensação de formigação tomou todo seu corpo. Reconhecia o que jazia entre os braços de José. Reconhecia as formas e a cor da pele. E, pode ver em seus lábios, sangue.
Serena não parecia estar consciente, tentou entender o que acontecia quando ele a largou no chão, inerte, e avançou em sua direção. Todavia, não reconhecia o homem que amava, apenas tamborilava em sua mente a razão real por ter-lhe imposto a distância. Não queria acreditar no que via; já não bastava a mulher da tapeçaria?   
No que havia se envolvido?
Novo relâmpago, ele já estava encima dela, e no susto, largou o rolo sobre o chão, partindo em correria para fora da casa. Vendo a tapeçaria aos seus pés, José saiu ao seu encalço.

***

O vento atiçava-lhe os cabelos contra o rosto; a roupa pesava e não permitia-lhe avançar tão rápido. Adentrara a mata ao redor da casa, mas não sabia que direção tomara para Ribeirão, para avisar seu pai e partirem dali. Suas lágrimas se embolavam as gotas de água que escorriam por seu rosto, enquanto deixava-se guiar pelos instintos que a natureza despertava em si.
Encheu-se de lama e folhas secas.  Sentia-se indo cada vez mais para dentro da escuridão das árvores, que formavam um cinturão ao seu redor. Não tinha ideia de onde estava, e a cada estrondo no céu, parava e se encolhia. Estava tremendo de frio e medo.  Começou a procurar por abrigo, não chegaria tão fácil à fazenda e não possuía muitas escolhas para pernoite. Quando, enfim, achou uma pequena gruta, ouviu pequenos galhos atrás de si se partirem e vários uivos se seguiram um aos outros.
– A matilha – murmurou, buscando-os na escuridão e tentando não pensar que sua situação estava pior.
Pensou em escalar a gruta para um platô logo acima de sua entrada. Mas a terra esfarelava entre seus dedos e não havia em que se agarrar.  Todavia, se optasse por ficar na gruta seria um alvo fácil e voltou a correr o mais rápido que pôde. Embrenhou-se entre as árvores e, sem perceber, tomou o caminho por onde viera.
As patas dos animais estavam as suas costas, batendo contra o terreno encharcado com fúria, sem se importar  se denunciavam sua presença à presa. Yamê corria o mais que podia, assustada, sem saber o que fazer. Parou por segundos para respirar e rasgou uma parte da camisola, que por estar moldada ao corpo, impedia-lhe os movimentos. Sentiu a presença deles ainda mais próximos, largou o tecido ali e voltou a correr.
Na altura dos joelhos, a camisola não lhe era empecilho. Estava apenas colada a seu corpo. Seus pés castigavam solo e poças de água.  Caiu sobre o pé a certa altura da fuga, praguejou e ouviu os rosnados agitados da matilha.
Respirou rápido, colocou-se de pé, e firmou o pé torcido no chão, impondo-lhe seu peso. Tinha que se manter viva, não importava como.  Suas lágrimas agora eram de dor e abandono. Forçou tanto o pé, que não conseguiu mais dar um passo, e não havia nada além das árvores e da chuva a sua volta.  Pensou em subir em uma, mas não ia conseguir apoio na perna direita. Olhou o que poderia ser usado para mantê-los longe, ao menos por um pouco de tempo.
Chorou, pediu desculpas ao pai por ser sempre tão negligente. E, em meio ás lagrimas, achou um pedaço de galho caído na terra. Não tinha muitas forças em si, mas não seria tão fácil parti-la ao meio – jurou aos seus algozes. Preparou-se escondida atrás de um tronco grosso e nodoso.  Esqueceu-se de tudo e concentrou-se nos movimentos a sua volta. Não eram muitos, porque os animais também procuravam por abrigo numa noite como aquela. Minimizou sua respiração, percebeu a do inimigo mais forte, mais próxima.
Ergueu o galho, o primeiro chegara. Concentrou sua força e deu a volta no tronco, fechando os olhos e imaginando o lobo. Estava a ponto de acertá-lo, quando sua mão foi segura por outra, bem mais forte. Abriu seus verdes e encontrou-se com os méis.
Estava tão encharcado quanto ela. As respirações de ambos se embolavam numa fumaça espiralada e fina.
– Você está bem?
Mas que tipo de pergunta era aquela? Ele era culpado dela estar aqui, era algo que não era humano. Não queria ir com ele, mas não conseguiria fugir com o pé torcido. Encarou os mels rendida, cedeu à pressão da mão dele e duas lágrimas escaparam pelo canto de seus olhos.
O braço dele envolveu sua cintura, levando-a mais próxima de seu corpo. A respiração dele era tão ruidosa quanto a dela, ele devia ter corrido pela mata também, mas isso não importava. Ele havia feito algo muito ruim com Serena. Não quis pensar na cena que vira. Sentiu a respiração dele contra suas bochechas; os dedos  frios em sua pele que secavam-lhe as lágrimas sem sucesso.
Era inútil lutar contra o destino, seria ele ou os lobos.
José sentia  um misto de alegria e medo por ela. Ouvira a matilha, sabia que a seguiam, e se a encontrassem antes dele, Yamê estaria morta. Não ia permitir isso, mesmo que não soubesse como explicar o que ela havia visto na casa. Havia lutado com Matheus, perdera sangue e precisava dele para fechar sua ferida. Criaturas amaldiçoadas como ele funcionavam assim, e Serena o alimentou. Não era algo que gostasse ou sentisse prazer. Não era como se fosse um vampiro e precisasse disso para viver, mas em circunstâncias como aquela, era inevitável, mas poucas vezes fora obrigado a fazer uso desse artifício. 
Como explicar isso a ela? Mesmo que Yamê carregasse o espírito de Alice, ele não estava despertado.
Abraçou-a com carinho, colando seus corpos.  Sentiu seu coração descompassado, tomando a ciência triste de que ela o temia.  No fundo, tudo o que fizera, havia sido para segurança dela. Respirou seu cheiro de alfazema e medo, e trouxe seu rosto preso entre suas mãos até o dele. Deliciou-se com cada traço dela. E viu-se beijando-lhe a testa, o nariz, as bochechas em pares. Ela estava viva, era o que importava.
Os verdes se abriram quando ele a afastou.
– Temos que ir – sentenciou.
– Eu não consigo andar – argumentou, sem entender porque ainda conseguia confiar nele.
– Eu te carrego.
Os uivos novamente preencheram o ar a volta deles, misturando-se aos trovões.
 – Vamos morrer – contrapôs assustada.
– Não, não vamos morrer – Tomou-a no colo.  – Eu prometo que não vou deixar que mal algum aconteça a você.
Segura no pescoço dele, ela o viu se embrenhar rápido pela mata. Buscar caminhos que ela não conhecia, mas que se rendiam a ele como amantes cobiçosas.  Não notou que, mesmo com ela no colo, ele conseguia manter a velocidade acelerada de seus passos.
Somente quando vislumbrou a casa grande, foi que seu coração cedeu à segurança do aconchego do corpo dele.  Sentiu os músculos por baixo da camisa branca, o coração que batia forte junto ao dela. Quando entrou na casa e a pousou no sofá, foi que sugeriu:
– Se não tivesse rasgado sua camisola, teria sido uma isca fácil. – Ela ainda o fitava angustiada, sem entender o que ele queria dizer. – Isso, de certa forma, os atrasou e os fez perder por algum tempo seu rastro.
Ele tocou o tornozelo dela, ela enrugou sua testa por dor.
– Vou pedir a Serena que esquente uma água e fazemos compressas.
– Ela... – balbuciou – Ela...
– Está viva – completou seu pensamento.
– Eu vi sangue em seus lábios, a vi sem vida... – despejou tudo junto, aflita.
– Ela estava hipnotizada – afirmou, afastando-se um pouco do sofá e sentando-se à mesa de centro junto a ele. – Não a matei.
– E como fez isso? – indagou atordoada.  – O que significa o que vi?
Apoiou a mão nos joelhos e desviou os méis dela.
– É uma longa história, Srta. Yamê – Lembrou-se dos verdes dela contra seus méis apavorados.  – É melhor cuidarmos de seu pé antes que inche.
– Eu quero ouvir a história – disse categórica, trazendo os méis até ela. – Há uma mulher naquela tapeçaria, em seu quarto, que eu conheço. Por que eu a conheço? – tinha certeza de que ele sabia a resposta.
– Aquela mulher se chamava Alice...  - ele disse com cuidado, não podia apressar o destino, mesmo que quisesse. – Ela morreu há muito tempo.
– Você a amava, não é?
A pergunta o pegou desprevenido e ele somente assentiu com a cabeça.
– Muito – completou, fazendo com que o coração dela se comprimisse e uma pontada de ciúmes atravessasse sua alma.      
Sentiu inveja dela. Silêncio.
– Ela era muito bonita – murmurou, sentindo-se definhar por dentro. – Há quanto tempo ela se foi?
– Há muitos anos...
– Quanto tempo, Joseph? – insistiu, vendo-o escurecer o olhar. – É esse seu nome não é? Não sei o que o levou a trocar, mas esse é seu nome.
– Eu vou buscar a água – ele se ergueu.
– Droga! Você vive mentindo para todo mundo! – ela esbravejou. – E, agora, esses sonhos se tornaram constantes! Tudo que vejo são lobos e essa mulher em minha cabeça.  – ele parou para ouvi-la. – E vejo fogo, sinto-me queimar numa fogueira... Mas isso foi há muito tempo atrás, não é mesmo? Ela existiu há muitos séculos! E o que essas lembranças têm a ver comigo?
Os verdes dela transbordaram sua angústia, e um soluço escapou de seus lábios.
– Por que eu? – soluçou.
Ele tinha mil explicações para ela. Mais do que saberia dar ou ela assimilar naquele momento. Entretanto, o desespero dela era o mesmo que o dele.
Joseph também queria respostas, estava há muito tempo esperando por elas. Há muito tempo esperando pelo gosto dela. Num único gesto, cobriu seus lábios carinhosamente.


Então amores?? O que acham da próxima aventura?

Beijokas


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2 comentários:

Liachristo disse...

Adorei e já querendo ler... Parabéns pela conquista e que venham muitos outros. Bjus

Roxane Norris disse...

Obrigada Lia! Se Deus quiser, virão sim, e vou repartir sempre com vocês!
Beijokas

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